quarta-feira, 10 de março de 2021


Ele acordou mais velho hoje. Sempre acorda mais velho. Nunca o suficiente. Ele arrasta suas correntes, qual Prometeu, empurra suas pedras montanha acima, qual Sísifo. E vai sendo devorado pelo tempo, como qualquer filho de Cronos.

Mas se o pulso ainda pulsa, ainda se vive. Ele ainda viverá, mais um dia para contar suas histórias,  e terá mais uma oportunidade de angustiar-se com as coisas banais desta vida. Tão banais que acabam se tornando essenciais. As presenças ou as lembranças das pessoas amadas, os seus livros e textos, o sorriso dos seus cachorros, as atividades de subsistência, e as suas intermináveis orações.  Pois ele vive a vida entre margens, esperando que de fora lhe venham as respostas mais agudas. Da terceira margem do rio.

Acho que ele vai fazer algumas coisas hoje. Mas com certeza também vai pensar outras mil. Então ele arrasta suas correntes prá fora da cama e carrega com ele todas as suas idades, seus pecados, seus medos, seus vícios, seus troféus, suas lembranças, seus amores e suas dores.

E o fluxo fluxa inexoravelmente. Arrasta-lhe. Brusca  ou suavemente. E ele  vai heroicamente sobrevivendo. Pobre mortal, sem deidades, sujeito aos signos e estigmas. Um cidadão de terceiro mundo, sem nome de família importante, sem fortuna acumulada e sem ganância suficiente. Logo ele, o mais íntimo de si mesmo. Muito e demais. Um assujeitado, que vai sujando a sua alma com concupiscências. Somente a graça lhe vai lavando e levando. 

- Graça? Deus? - Questiona-se:

- Ó deus dos desgraçados! Porque tamanho opróbrio debaixo deste céu verde e amarelo. Fazei chover a justiça. Amarrai este  satanás tupiniquim. 

- Procuro-te no vão das palavras e não te encontro. Só encontro o amor. Sentimento nobre e elevado, inacessível aos donos deste mundo, mas dado aos pequeninos. Todavia, como confiar que ele possa causar, nos corações humanos amizades, se tão contrário a si continua sendo este mesmo amor.

- E se Deus morrer? O que será de nós? - Ele pensa absurdos

O fato é que ele já acordou cansado. Nunca cansado o suficiente. Arrastando suas correntes, empurrando suas pedras. E hoje ele precisa dar conta de algumas pedras, cumprir sua meta diária. Mas o topo é tão inacessível.

- Ei! Você já percebeu que sangue é derramado todo o dia. Bicho é atropelado, holocaustos em abatedouros, carniceiros insanos, bala perdida. - ele pensa errado. É a  humanidade  que está perdida!

Mas, se o pulso ainda pulsa, segue a vida.

- Era uma vez, me disseram, uma galáxia que se chocou com nossa galáxia. Imagina! Que coisa colossal! Imagine multiversos com réplicas de nós. Imagine o universo quântico… - pensa de novo suas obsolescências.

Pois importante mesmo é tudo que lhe toca, porque ele só se vê no que vê e no que pode sentir,  e se importa somente com o que ele consegue importar prá dentro de si. É egocêntrico, claustrofóbico. Profundissimamente hipocondríaco. 

Mas está tentando se esvaziar, regular-se, sintonizar-se, organizar-se. Tá tentando se segurar. Mas não tem nome, faz versos, zomba dos outros, ama, protesta. 

- Que fazer, se pra quem tá se afogando até jacaré é toco, kkk. Filosofia barata.

Ele acordou de novo mais velho. Suas correntes estão pesadas e suas pedras lhe esperam. Acho que só o sono é que lhe resguarda. Mas sono bom está ficando caro.

Mesmo assim ele continua. Sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope - como dizia um conhecido seu.

Ele só marcha, claudicante ou resolutamente, ele marcha. Mas, prá onde? Até quando?

Pra onde lhe couber. Até quando o bom deus quiser...


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