terça-feira, 9 de março de 2021

Ela não queria, mas ficava ali, parada, só, no balcão. 

Se pudesse voltar ao paraíso. Não podia. Ela não era de pedra, mas era dura. Só por fora. Então, Ela só esperava, por não se sabe o quê. Sabia apenas o que não queria. 

Mas, e esse deus que não vem? - questiona. 

O quê? - Ela ouve alguém falar de amor. Mas o amor é tão complicado. E o que poderia mudar, se na vida parece que tudo é tão demarcado.

Perdeu-se. Foi longe demais.

Tinha beleza? Tinha juventude. Não tem mais. Tinha certezas? Tinha. Mas agora não tem mais. Tinha medos? Sim. E ainda os tem.

Ela sofre. Amiga-se da dor. Mas se nega a costumar-se. 

Não! Não! Isso não está certo! - diz de novo. 

Mas quem disse que ia dar certo? Se se apegar ao errado não vai dar certo mesmo! É o óbvio! 

- Ao inferno com as obviedades... - Resmunga.

Ela achava que por linhas retas ia. Não foi.

Mas Ela é dura. Só por fora. Ela sofre, mas não deixa corromper sua tez, afogando-se no seu âmago. 

E o futuro? Que será? - indaga-se. Mas o futuro se cala. 

Por enquanto, só, Ela ficou ali parada. Se pudesse voltar. Se pudesse gritar. Se pudesse gemer. Se pudesse mudar. Se pudesse sumir. Não podia.

Ah! E esse deus que não vem? - anseia novamente.

Cansada de tudo, Ela mitiga sua sofrência com esperanças religiosas. Culpa o diabo, aquele estraga prazeres, ouve músicas que falam de vitórias, se apega a chavões e clichês positivistas do facebook. Também sublima as dores do espírito, infligindo disciplina  ao seu próprio corpo fraco e preguiçoso.

Só então, deus dá o ar da sua graça, naquele momento de pura nostalgia. 

 Um Ele chega, de repente, um outro, sem grandes aparências, um desconhecido, também estrangeiro de seu próprio mundo, também um perdido à procura de não se sabe o quê, e lhe pergunta sem nenhum pudor: 

- Você quer dançar?...  


   


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