quinta-feira, 11 de março de 2021




Eles estavam nus e não se envergonhavam. Viviam isolados ali, sem noção alguma de que existiam outros mundos ou outras formas de vivências. Se é que existiam? Sabia-se apenas que ali era um paraíso, o Éden, o habitat perfeitamente preparado para dar tudo certo. Uma experimentação social tranquila e inabalável.

Ali viviam como humanos de dois sexos, macho e fêmea, um casal, numa relação hétero, monogâmica e vitalícia.  Feitos um do outro, feitos um para o outro. Sim, digo feitos, porque eles não eram uma obra do descompromissado acaso, ou do despreocupado destino, eram obra do Criador, um ser criativo por natureza, possuidor de uma essência absoluta. E ali eles viviam, sob a observação e a supervisão atenta do Todo Poderoso, sem o peso e a tirania do tempo, com apenas muito espaço, liberdades e responsabilidades. Tudo o que, posteriormente, as narrativas humanas envelopariam em lendas e histórias de dias e anos e séculos e milênios, blábláblá.

Lá havia não só a não noção de tempo, mas nem de pecado e nem de morte. Pois só conheciam o bem absoluto, incólume, haja vista que o mal viria a ser apenas um subproduto da sua ausência. Por isso, tudo parecia ir realmente bem naquele pequeno constructo divinológico.

Sem pressa nenhuma, pois na ausência do tempo desaparece toda ansiedade, o Ser Divino ia adicionando, aos poucos, ingredientes novos à sua experimentação. De vez em quando até Ele mesmo vinha pessoalmente conversar com os felizardos confinados, e proseavam altas prosopopeias. Conquanto lá fora o Big Bang fizesse uma bagunça de proporções organizáveis, ali dentro, naquela bolha paradisíaca, a climatização era impecável - se é que você me entende!

O Altíssimo os estava preparando para algo grandiosíssimo, vertiginosamente quase que incompreensível. Preparou-os para a ordem, para o progresso, para a ciência, para  a arte, para a ludicidade, deu-lhes o seu carimbo de qualidade, permeando tudo com a transversalidade do amor e da liberdade. Coisa sem tempo, sem pressa e sem ansiedade. E por causa da comunhão total de tudo, nada lhes era estranho.

Todavia, num tempo indizível, chegou-se o Pai Celestial com dois elementos estranhos no paraíso, o contraditório e o inexorável. Pela primeira vez se ouviu a palavra não e a palavra morte, acumuladas num silogismo básico e terrível - de tudo se poderia comer, mas não do fruto daquela árvore… porque certamente morrereis! - Será que suas crias já estariam amadurecidas para um tão grande trauma? 

Apesar de não estar sujeito ao tempo, o Pantocrator precisava ser criativo, precisava mudar o script, precisava avançar de estágio, para um módulo mais hardcore de seu empreendimento transcendental. E o fez plantando no Éden um impostor, do tipo caso perdido, um cara especialista em marketing, mestre em fazer diferente no olhar do cliente, o qual quis entrar em cena travestido de um animal que viria a ser uma beleza  peçonhenta, símbolo da atração que se tornaria fatalizadora. O qual, cheio de pressa e de ansiedade, realizou profissional e competentemente, com exatidão, e diga-se de passagem, com uma grande dose de prazer, sua importante tarefa nos planos do Criador. E o faz ainda, até os dias de hoje.

Sem machismo ou misoginia de sua parte, ele escolheu a mulher como presa. Mas isso não faria diferença nenhuma, pois o pecado ainda não havia dividido a humanidade. Eram carne da mesma carne e osso do mesmo osso - que lindeza! O Bicho Ruim fez seu enganamento com palavras tão bonitas e com uma retórica assaz convincente, que até parecia um desses políticos que a gente vota todo ano e não entregam nada do que prometem, e a gente vota novamente. Ele falou de meritocracia, de ascensão hierárquica, de empoderamento, de competitividade e vantagem sobre o outro, agregou mais valor ao produto, etc., etc. Enfim, ele falou de coisas e procedimentos que a gente já conhece e aprecia  muito bem, mas que eram totalmente estranhos aos habitantes do paraíso.

Ao fim da ensebação, a cliente já estava mais do que convencida e satisfeita, a qual desfechou a infelicitada obra com uma bela mordida no fruto da árvore proibida, e logo foi ter com o seu homem, que após ouvi-la repetir toda a ladainha vomitada pelo diabólico visitante, caiu de boca na fruta também. Estava feito o mal feito. E então, no lugar que não havia a noção de  tempo, chegou o tempo em que deveria haver um tempo para tudo, inclusive para morrer.

O Jeová, onisciente de tudo, precisou fazer uma reunião de fluxo, e perpetrou os novos  rumos devidos do seu grande engenhamento. Ao Satanás, que vivia loucamente um estilo de existência suicida, do tipo não tem pra mim, não vai ter pra ninguém, foi-lhe destinado continuar com seu papel de criatura rastejante e perigosa, cheio de enganação e mentira. Ao casal de pombinhos, cessar-lhes-iam as regalias, o mar de rosas, o melzinho na chupeta.

A partir daquele evento, eles seriam testados em um outro ambiente, fora da bolha de proteção e fora da casinha, com dores, loucuras, devaneios, incompletudes, parcialidades, corruptelas, sombras e rutilancias. Suas verdades seriam relativas, suas relações seriam predatórias. Estariam presos no espaço e no tempo, e seu fim seria a morte. A imagem do Criador seria apenas uma questão de fé, e atenderia pela designação genérica de deus ou deuses, com religiões e rituais burocratizando o caminho do céu. Teriam sua liberdade cerceada por entre margens e lutariam por sua subsistência e sobrevivência entre outros animais, a terra produziria cardos e abrolhos, nas intempéries e ameaças do seu novo ambiente, cheio de hostilidades e desafios. 

Assim, tudo mudou. Foram expulsos do Éden, e o paraíso se tornou uma utopia a ser elucubrada por crentes, poetas, profetas e loucos.

Largados e pelados naquele lugar inóspito, de repente, os humaninhos se viram nus e se envergonharam, vestiram-se com folhas e peles de animais e foram se encavernar em algum lugar do seu novo habitat.  Começaram a fazer  filhos, como estratégia para garantir sua posteridade e progresso, mas logo de início viram que as coisas não se deram muito bem entre os irmãos, fato que anunciava que toda essa história não os levaria a bons desfechos.    

O El Shadai sentiu grandemente as dores desse parto, mas tudo estava planejado em seus misteriosos intentos e desígnios, e precisava acontecer assim, para transformar seus pequenos e limitados filhos em seres à altura sua imagem e semelhança, seres não autômatos, mas livres, com livre arbítrio e liberdade responsável, solidários no amor que sustentaria e movimentaria todos os universos. 

Enquanto esse tempo de grande tribulação não vencer, o paraíso será só um anseio, e estará ausente das experiências terrenas, com suas portas cerradas por espadas flamejantes, e só pisarão de novo em seu solo sagrado aqueles se dignificarem na escola da graça e do amor incondicional do Pai Celeste, manifestados na plenitude dos tempos, naquele lugar de sangue e de julgamento, onde falecem todas as vaidades e as vãs esperanças humanas, para renascerem vívidas as verdades e as esperanças de vida eterna. Lá no cume do gólgota.


quarta-feira, 10 de março de 2021


 







 


Ele acordou mais velho hoje. Sempre acorda mais velho. Nunca o suficiente. Ele arrasta suas correntes, qual Prometeu, empurra suas pedras montanha acima, qual Sísifo. E vai sendo devorado pelo tempo, como qualquer filho de Cronos.

Mas se o pulso ainda pulsa, ainda se vive. Ele ainda viverá, mais um dia para contar suas histórias,  e terá mais uma oportunidade de angustiar-se com as coisas banais desta vida. Tão banais que acabam se tornando essenciais. As presenças ou as lembranças das pessoas amadas, os seus livros e textos, o sorriso dos seus cachorros, as atividades de subsistência, e as suas intermináveis orações.  Pois ele vive a vida entre margens, esperando que de fora lhe venham as respostas mais agudas. Da terceira margem do rio.

Acho que ele vai fazer algumas coisas hoje. Mas com certeza também vai pensar outras mil. Então ele arrasta suas correntes prá fora da cama e carrega com ele todas as suas idades, seus pecados, seus medos, seus vícios, seus troféus, suas lembranças, seus amores e suas dores.

E o fluxo fluxa inexoravelmente. Arrasta-lhe. Brusca  ou suavemente. E ele  vai heroicamente sobrevivendo. Pobre mortal, sem deidades, sujeito aos signos e estigmas. Um cidadão de terceiro mundo, sem nome de família importante, sem fortuna acumulada e sem ganância suficiente. Logo ele, o mais íntimo de si mesmo. Muito e demais. Um assujeitado, que vai sujando a sua alma com concupiscências. Somente a graça lhe vai lavando e levando. 

- Graça? Deus? - Questiona-se:

- Ó deus dos desgraçados! Porque tamanho opróbrio debaixo deste céu verde e amarelo. Fazei chover a justiça. Amarrai este  satanás tupiniquim. 

- Procuro-te no vão das palavras e não te encontro. Só encontro o amor. Sentimento nobre e elevado, inacessível aos donos deste mundo, mas dado aos pequeninos. Todavia, como confiar que ele possa causar, nos corações humanos amizades, se tão contrário a si continua sendo este mesmo amor.

- E se Deus morrer? O que será de nós? - Ele pensa absurdos

O fato é que ele já acordou cansado. Nunca cansado o suficiente. Arrastando suas correntes, empurrando suas pedras. E hoje ele precisa dar conta de algumas pedras, cumprir sua meta diária. Mas o topo é tão inacessível.

- Ei! Você já percebeu que sangue é derramado todo o dia. Bicho é atropelado, holocaustos em abatedouros, carniceiros insanos, bala perdida. - ele pensa errado. É a  humanidade  que está perdida!

Mas, se o pulso ainda pulsa, segue a vida.

- Era uma vez, me disseram, uma galáxia que se chocou com nossa galáxia. Imagina! Que coisa colossal! Imagine multiversos com réplicas de nós. Imagine o universo quântico… - pensa de novo suas obsolescências.

Pois importante mesmo é tudo que lhe toca, porque ele só se vê no que vê e no que pode sentir,  e se importa somente com o que ele consegue importar prá dentro de si. É egocêntrico, claustrofóbico. Profundissimamente hipocondríaco. 

Mas está tentando se esvaziar, regular-se, sintonizar-se, organizar-se. Tá tentando se segurar. Mas não tem nome, faz versos, zomba dos outros, ama, protesta. 

- Que fazer, se pra quem tá se afogando até jacaré é toco, kkk. Filosofia barata.

Ele acordou de novo mais velho. Suas correntes estão pesadas e suas pedras lhe esperam. Acho que só o sono é que lhe resguarda. Mas sono bom está ficando caro.

Mesmo assim ele continua. Sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope - como dizia um conhecido seu.

Ele só marcha, claudicante ou resolutamente, ele marcha. Mas, prá onde? Até quando?

Pra onde lhe couber. Até quando o bom deus quiser...


terça-feira, 9 de março de 2021

Ela não queria, mas ficava ali, parada, só, no balcão. 

Se pudesse voltar ao paraíso. Não podia. Ela não era de pedra, mas era dura. Só por fora. Então, Ela só esperava, por não se sabe o quê. Sabia apenas o que não queria. 

Mas, e esse deus que não vem? - questiona. 

O quê? - Ela ouve alguém falar de amor. Mas o amor é tão complicado. E o que poderia mudar, se na vida parece que tudo é tão demarcado.

Perdeu-se. Foi longe demais.

Tinha beleza? Tinha juventude. Não tem mais. Tinha certezas? Tinha. Mas agora não tem mais. Tinha medos? Sim. E ainda os tem.

Ela sofre. Amiga-se da dor. Mas se nega a costumar-se. 

Não! Não! Isso não está certo! - diz de novo. 

Mas quem disse que ia dar certo? Se se apegar ao errado não vai dar certo mesmo! É o óbvio! 

- Ao inferno com as obviedades... - Resmunga.

Ela achava que por linhas retas ia. Não foi.

Mas Ela é dura. Só por fora. Ela sofre, mas não deixa corromper sua tez, afogando-se no seu âmago. 

E o futuro? Que será? - indaga-se. Mas o futuro se cala. 

Por enquanto, só, Ela ficou ali parada. Se pudesse voltar. Se pudesse gritar. Se pudesse gemer. Se pudesse mudar. Se pudesse sumir. Não podia.

Ah! E esse deus que não vem? - anseia novamente.

Cansada de tudo, Ela mitiga sua sofrência com esperanças religiosas. Culpa o diabo, aquele estraga prazeres, ouve músicas que falam de vitórias, se apega a chavões e clichês positivistas do facebook. Também sublima as dores do espírito, infligindo disciplina  ao seu próprio corpo fraco e preguiçoso.

Só então, deus dá o ar da sua graça, naquele momento de pura nostalgia. 

 Um Ele chega, de repente, um outro, sem grandes aparências, um desconhecido, também estrangeiro de seu próprio mundo, também um perdido à procura de não se sabe o quê, e lhe pergunta sem nenhum pudor: 

- Você quer dançar?...